Entre o Adriático e os Apeninos, uma região de cidades históricas, receitas locais e vinhos que revelam por que a verdadeira curadoria começa além do que já conhecemos.
Existe uma Itália que quase todos reconhecem antes mesmo de conhecê-la: Roma, Veneza, Florença, Toscana e Costa Amalfitana. E existe outra que não se anuncia por monumentos universalmente fotografados, mas por pequenas cidades, receitas familiares, vinhedos entre colinas e nomes que raramente aparecem nos roteiros internacionais.
Le Marche pertence a essa segunda Itália.
Situada entre os Apeninos e o mar Adriático, no centro do país, a região reúne montanhas, colinas, vilarejos medievais e uma extensa faixa costeira, cerca de dois terços do território são formados por colinas, e é essa geografia que determina o que se planta, o que se cozinha e o que se coloca à mesa. Até o nome, no plural, já anuncia sua natureza: não existe uma única Marche, mas vários territórios reunidos, cada um com seus sabores, costumes e formas de interpretar a origem.
Uma Itália que exige curiosidade
Le Marche não é uma região sem história ou sem grandes produtos. É uma região que ainda não foi simplificada para o olhar do turismo internacional e talvez seja por isso que preserve tão bem a relação entre cidade, campo e cozinha. Em poucos quilômetros, deixa-se o Adriático e chega-se a um interior formado por colinas cultivadas, pequenas propriedades, massas artesanais, olivais e vinhedos. O alimento não aparece isolado da paisagem: ele ajuda a explicá-la.
Urbino, cidade natal de Rafael, tornou-se um dos grandes centros culturais do Renascimento. Seu centro histórico, dominado pelo Palazzo Ducale e admiravelmente preservado, é reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO e, ainda assim, permanece distante da massificação de Florença ou Siena.
Em Ascoli Piceno, uma das principais cidades do território dos antigos Picenos, as olive all’ascolana transformam uma azeitona recheada, empanada e frita em símbolo da cidade. A receita não é apenas uma especialidade local: guarda o trabalho paciente da preparação doméstica e a memória de uma tradição que atravessou gerações antes de conquistar as ruas. Segundo a tradição local, sua forma recheada teria se difundido no início do século XIX, nas cozinhas de famílias nobres, como uma maneira elaborada de aproveitar diferentes carnes disponíveis após as refeições festivas. No histórico Caffè Meletti, também em Ascoli, a anisetta conduz a outra parte dessa história: a dos cafés italianos como lugares de convivência, cultura e identidade urbana. Conhecer um território não significa apenas provar o que ele produz, mas compreender os espaços e os rituais em que esses produtos passaram a fazer sentido.
Campofilone: quando uma pequena cidade se torna origem
Entre as colinas da província de Fermo está Campofilone, uma pequena cidade cujo nome atravessou fronteiras graças aos maccheroncini di Campofilone uma massa finíssima e delicada, preparada com ovos, que representa uma tradição preservada ao longo do tempo. Aqui, o nome do lugar não funciona como simples referência geográfica: é parte da identidade do produto.
Campofilone ensina algo importante sobre valor. Uma origem não precisa ser mundialmente famosa para ser relevante. Ela se torna valiosa quando consegue preservar uma técnica, uma memória e uma relação reconhecível com seu território.
Macerata: cultura também se descobre longe dos grandes centros
Macerata acrescenta outra camada à viagem. Seu Sferisterio, uma monumental arena a céu aberto do século XIX, tornou-se cenário de importantes apresentações de ópera presença que rompe uma associação comum, a de que a grande experiência artística italiana estaria concentrada apenas em Roma, Florença, Milão ou Veneza. Em Le Marche, a cultura convive com os mercados, com as colinas agrícolas, com as mesas familiares e com os vinhos do território. Essa proximidade é uma das formas mais autênticas de compreender a Itália.
O Adriático à mesa
Quando o percurso retorna à costa, a paisagem e a cozinha mudam novamente. Na Riviera do Conero, os moscioli são mexilhões selvagens encontrados nas formações rochosas do litoral diferentemente dos mexilhões cultivados, são capturados em seu ambiente natural e se tornaram uma expressão da relação entre a comunidade e o Adriático. Podem chegar à mesa em preparações simples ou inesperadas, mas o essencial permanece: o sabor nasce do lugar.
Vincisgrassi: não é apenas uma lasanha regional
À primeira vista, o vincisgrassi pode lembrar uma lasanha. Mas descrevê-lo assim é enxergar apenas sua forma. Considerado um dos pratos emblemáticos de Le Marche, reúne camadas de massa fresca preparada com ovos e um ragù de cozimento lento, tradicionalmente enriquecido com diferentes cortes e, em algumas versões, miúdos de aves. É um prato ligado aos almoços de domingo e às celebrações familiares, especialmente nas províncias de Ancona e Macerata. Sua origem é cercada por versões e adaptações que variam dentro da própria região, o que é revelador: a culinária regional perde profundidade quando é traduzida apenas pela comparação com algo já conhecido. Para compreender o vincisgrassi, é preciso aceitá-lo em seu próprio contexto como prato, memória e expressão de um território.
Os vinhos que contam as diferentes Marche
O mesmo raciocínio vale para o vinho: curadoria não é procurar equivalentes para tudo, é permitir que cada origem seja apresentada por aquilo que a torna singular. E poucas regiões italianas ilustram isso tão bem quanto Le Marche, com cinco DOCGs e mais de uma dezena de DOCs reunidas em pouco espaço.
O Verdicchio é a referência mais conhecida da região uma variedade branca autóctone, de acidez marcante, notas cítricas e de amêndoa e reconhecida capacidade de envelhecimento , mas se apresenta em expressões distintas conforme o território. Nos Castelli di Jesi, a proximidade relativa do Adriático, a amplitude do território e a diversidade das colinas dão origem a diferentes interpretações, das mais frescas às mais estruturadas. Em Matelica, o vale interior, cercado por montanhas e menos diretamente influenciado pelo mar, favorece outra expressão da variedade, frequentemente marcada por acidez, mineralidade e grande capacidade de evolução. A uva é a mesma; o território modifica sua voz.
Nos tintos, o protagonismo é da uva Montepulciano, muitas vezes em corte com Sangiovese. Nas encostas do Monte Conero, o Rosso Conero revela que um território marítimo também pode produzir tintos de personalidade, estrutura e concentração. Mais ao sul, no Piceno, o Rosso Piceno acompanha a cozinha mais robusta do interior, enquanto os brancos Pecorino e Passerina recuperam variedades historicamente ligadas à mesma região.
Vale reservar espaço para duas raridades autóctones: a Lacrima di Morro d’Alba, de perfil intensamente floral e especiado; e a Vernaccia di Serrapetrona, o único espumante tinto italiano com DOCG. Produzida em Serrapetrona e em áreas delimitadas de Belforte del Chienti e San Severino Marche, passa por três fermentações, incluindo uma etapa com parte das uvas submetida à passificação natural, uma tradição documentada desde o século XV.
Tradição não é imobilidade
Le Marche também mostra que preservar não significa manter tudo intocado. Produtores, cozinheiros, pequenas comunidades e iniciativas locais atualizam técnicas, recuperam variedades e criam novas formas de apresentar produtos antigos. A tradição permanece viva porque continua sendo praticada, interpretada e transmitida. Esse equilíbrio entre continuidade e renovação é decisivo: quando a inovação parte da compreensão da origem, ela não apaga a identidade cria condições para que ela atravesse o tempo e alcance novos públicos.
Onde começa a verdadeira curadoria
Talvez o maior ensinamento de Le Marche esteja justamente no fato de ainda ser uma descoberta para tantos viajantes. Curadoria não é reunir apenas aquilo que o mercado já reconhece. É pesquisar, compreender e identificar valor antes que ele se torne evidente. É perceber que uma pequena cidade pode preservar uma técnica extraordinária; que uma uva pouco conhecida pode traduzir um território; e que um prato aparentemente simples pode guardar séculos de história familiar e coletiva.
A Itália não termina nos destinos mais famosos. Em muitos sentidos, é depois deles que ela começa a se revelar. Le Marche nos convida a olhar com mais atenção: para o que existe entre o mar e a montanha, para as histórias que permanecem fora dos grandes roteiros e para os vinhos que ainda têm muito a dizer além de suas fronteiras.
Porque a verdadeira curadoria começa quando se olha além do que já é amplamente conhecido.