Quando crescer não significa vender mais
Quando crescer não significa vender mais


Eu desconfio de mercados que celebram o faturamento antes de olhar para o estoque.

Não porque o crescimento não importe.

Mas porque, às vezes, ele acontece em um lugar diferente daquele que imaginamos.

O mercado brasileiro de vinhos movimentou aproximadamente R$ 9,8 bilhões no primeiro semestre de 2026.

Foram 23,27 milhões de caixas de nove litros comercializadas.

Um recorde.

O volume de sell-in cresceu 2%.

O faturamento, 9%.

Seria fácil concluir que o mercado cresceu.

Eu prefiro fazer outra pergunta.

Cresceu onde?

Na quantidade consumida?

No preço?

Na mudança do mix?

Ou no volume colocado em circulação?

A diferença importa porque o sell-out dos vinhos tranquilos não acompanhou o mesmo movimento.

Mais vinho entrou no mercado.

Mas não saiu na mesma velocidade.

Quando isso acontece, o crescimento pode começar a mudar de natureza.

Pode deixar de representar expansão e passar a significar estoque.

E estoque, quando não gira, não é apenas produto parado.

É capital imobilizado.

Margem pressionada.

Uma disputa cada vez mais agressiva por preço, espaço e atenção.

 


Um mercado que cresce enquanto o mundo recua

 

O Brasil continua sendo uma oportunidade real.

Talvez uma das mais interessantes do mundo.

Enquanto o consumo global de vinho recuou 2,7% em 2025, o país alcançou o maior volume estimado de sua história: 4,4 milhões de hectolitros.

O resultado ficou quase 20% acima da média dos cinco anos anteriores.

É natural que produtores internacionais olhem para cá.

O que me parece menos discutido é o que acontece quando todos enxergam a mesma oportunidade ao mesmo tempo.

A oportunidade não desaparece.

Mas deixa de ser território livre.

Torna-se disputa por relevância.

A Itália soube ocupar parte desse movimento.

No primeiro semestre, suas exportações de vinho para o Brasil cresceram 14,3% em valor. O preço médio chegou a US$ 4,81 por litro — 24,6% acima do registrado três anos antes.

Não é liderança em volume.

É a construção de um espaço no premium acessível.

E isso também diz algo sobre o consumidor brasileiro.

Talvez ele não esteja simplesmente comprando mais.

Talvez esteja comprando menos vezes — e escolhendo melhor quando compra.

É uma diferença importante.

 


O preço não resolve aquilo que o mercado ainda não compreendeu

 

Preço baixo já não garante giro.

Preço elevado, sozinho, também não constrói valor.

Entre os dois existe uma pergunta que nenhuma planilha responde sem conhecer o mercado:

Por que esta garrafa deveria ser escolhida?

Tenho a impressão de que parte do mercado ainda concentra inteligência demais na entrada e atenção de menos na permanência.

Escolher uma boa origem é essencial.

Mas não é suficiente.

Um produto pode ser correto, bem-posicionado e chegar ao país no momento aparentemente ideal.

Ainda assim, pode não encontrar o lugar que imaginávamos para ele.

Porque o mercado não termina na importação.

Ele continua na prateleira.

Na maneira como o produto é apresentado.

Na equipe que precisa compreendê-lo para recomendá-lo.

No canal escolhido.

No preço que dialoga — ou não — com aquele público.

Na leitura do giro.

Na capacidade de perceber rapidamente quando a estratégia precisa mudar.

É nesse ponto que o estudo de mercado deixa de ser uma etapa anterior ao lançamento.

Torna-se gestão contínua.

 


Quando o produto encontra outras formas de permanecer

 

Talvez o desempenho dos espumantes nacionais ajude a tornar isso visível.

Eles continuaram crescendo no varejo, em volume e em valor, mesmo quando os vinhos tranquilos perderam força.

Durante muito tempo, o espumante dependeu de uma ocasião.

A celebração.

Agora começa a encontrar outras.

O almoço.

O aperitivo.

O encontro breve.

A taça sem data especial.

Não foi apenas a oferta que cresceu.

O produto encontrou novas maneiras de permanecer.

E essa talvez seja a parte mais difícil de qualquer processo de entrada em um mercado.

Não colocar uma garrafa em circulação.

Construir razões para que ela continue sendo escolhida.

O Brasil recebeu mais vinho.

Movimentou mais dinheiro.

Atraiu mais atenção internacional.

As oportunidades existem.

Mas oportunidades não se realizam apenas porque o mercado parece favorável.

Sem leitura, estratégia e acompanhamento, podem chegar ao ponto de venda e terminar ali.

A pergunta, então, não é apenas se haverá consumo suficiente para tudo o que colocamos em circulação.

É outra:

Chegar é logística.

Permanecer é estratégia.

Quantos produtos foram preparados para uma coisa e quantos para a outra?

 

Luciana A Marinho

Sobre o autor:

Luciana Marinho é fundadora da Davvero Emporio | Internacionalização e desenvolvimento de mercados entre Europa e Brasil | Construção de presença real no mercado | Vinhos e cafés especiais

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