O território que ninguém imagina
O Brasil tem 8,5 milhões de km². A Europa, excluindo a porção russa, ocupa 6,2 milhões de km². Um único país maior que toda a Europa Ocidental.
De um estado do Norte ao extremo Sul são mais de 4.300 km em linha reta, cerca de 5 horas de voo. Dentro desse trajeto você atravessa climas tropicais, subtropicais e temperados. Culturas moldadas por imigrações alemãs, italianas, japonesas, africanas e indígenas, cada uma com vocabulário, culinária e comportamento de consumo distintos.
No Brasil fala-se português em todos os 26 estados. E há um presidente da república para todos eles. O resto é tudo diferente.
O estado de São Paulo tem PIB maior que países como Argentina, Suécia, Noruega e Dinamarca. Em 2024, o estado com maior crescimento de PIB do Brasil inteiro foi a Paraíba, 8,8% , um estado do Nordeste, acima de qualquer outra região do país. O Nordeste como região cresceu acima da média nacional pelo segundo ano consecutivo.
Isso não é anomalia. É o Brasil real, onde o crescimento não segue mapa fixo e nenhuma região tem o monopólio da oportunidade.
O Brasil que exporta tecnologia
Existe a percepção, especialmente na Europa, de que o Brasil é um grande exportador de commodities agrícolas, e pouco mais. Os dados contam uma história diferente.
Embraer — o avião que decolou do Hemisfério Sul
A Embraer é a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo e líder absoluta em jatos comerciais de até 150 assentos. Em 2025, entregou 244 aeronaves, 78 comerciais, 155 executivas e 11 militares, crescimento de 18% em relação ao ano anterior. A carteira de pedidos encerrou o ano em US$ 31,6 bilhões, recorde histórico da empresa.
A cada 10 segundos, um avião da Embraer decola em algum lugar do mundo, transportando mais de 150 milhões de passageiros por ano. Clientes na Europa incluem companhias da Holanda, França, Suíça, Noruega e Dinamarca. Na Ásia, Japão. Nas Américas, Estados Unidos, México e Argentina, entre outros.
O KC-390 Millennium , cargueiro militar desenvolvido no Brasil, compete diretamente com o C-130J da Lockheed Martin americana e já foi vendido para Portugal, Suécia, Eslováquia e Lituânia, com negociações em andamento com mais 10 países.
Nióbio, terras raras e minerais estratégicos
O Brasil detém 94% das reservas mundiais de nióbio, mineral essencial para a indústria de alta tecnologia, ligas de aço de alta resistência, baterias e componentes aeroespaciais. É o segundo maior detentor de reservas de terras raras do planeta, com 23% do total global, atrás apenas da China. Terras raras são indispensáveis para fabricação de smartphones, carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos militares.
O interesse estratégico desses recursos é tão elevado que os Estados Unidos incluíram o nióbio brasileiro entre os minerais críticos para sua segurança nacional. A demanda global por minerais estratégicos deve crescer até 1.500% até 2050, segundo projeções do setor.
PIX — o sistema de pagamentos que o mundo estuda
O PIX brasileiro é estudado pelo Federal Reserve americano e por bancos centrais europeus como modelo de eficiência e inclusão financeira. Em segundos, qualquer brasileiro de qualquer banco, a qualquer hora, transfere dinheiro sem custo. O sistema processa mais de 200 milhões de transações por dia.
Bancos centrais de mais de 40 países visitaram o Banco Central do Brasil para entender o modelo. O Fed ainda não implementou algo equivalente.
Petrobras e o pré-sal
A Petrobras desenvolveu tecnologia proprietária para exploração em águas ultra-profundas, mais de 7.000 metros abaixo do nível do mar, que é referência mundial no setor. Nenhum outro país do mundo opera nessa profundidade com a mesma escala e eficiência. A tecnologia do pré-sal brasileiro é licenciada e estudada internacionalmente.
Urna eletrônica
O Brasil realiza a maior eleição digital do mundo, 150 milhões de eleitores, apuração completa em menos de 3 horas, com criptografia própria que países com sistemas eleitorais centenários ainda não possuem.
O Brasil na medicina e na ciência
O Brasil figura entre as 20 principais nações no ranking global de pesquisas clínicas. A infraestrutura do SUS, com mais de 200 milhões de pacientes cadastrados, é valorizada internacionalmente como plataforma única para estudos de larga escala.
O Instituto Butantan e a Fiocruz são referências globais em produção de vacinas e pesquisa em doenças tropicais.
Em 2026, a Anvisa liberou estudos clínicos com a polilaminina, medicamento inovador para tratamento de lesões medulares desenvolvido pela professora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, após quase 30 anos de investigação científica. Em estudo piloto com oito pacientes com lesão medular completa, seis apresentaram algum grau de melhora motora, taxa muito superior aos cerca de 10% observados normalmente nesses casos. A comunidade científica internacional já a aponta como possível candidata ao Prêmio Nobel de Medicina.
Uma pesquisadora brasileira, numa universidade pública federal, com financiamento público. Isso também é o Brasil
O Brasil é um dos líderes na América Latina em terapia CAR-T Cell para tratamento de leucemias e linfomas, com centros de excelência na USP e no Hemocentro de Ribeirão Preto. E lidera pesquisas globais sobre doenças negligenciadas como Chagas, Leishmaniose e Malária, servindo como plataforma estratégica para o desenvolvimento de medicamentos pela sua diversidade genética e epidemiológica única.
O Brasil nos blocos globais
O Brasil é membro do G20, BRICS, Mercosul e está em processo avançado de adesão à OCDE. Em 2025, recebeu US$ 85 bilhões em Investimento Direto Estrangeiro, segunda maior destinação do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.
O acordo Mercosul-UE, cujas negociações foram concluídas em dezembro de 2024 e formalmente aprovado e assinado em janeiro de 2026, abre caminho para a maior zona de livre comércio do mundo, 700 milhões de pessoas, com eliminação progressiva de tarifas sobre 90% dos produtos em até 15 anos.
Nicola Minervini, consultor especialista em internacionalização para o América Latina, Europa e Ásia, com mais de 40 anos de experiência, documentou em seus artigos que o Brasil possui o segundo maior complexo industrial das Américas, atrás apenas dos Estados Unidos, com excelências em aeronáutica, agroindustria, automobilístico, cosméticos, software e e-commerce. E que o export italiano para o Brasil, US$ 7 bilhões em 2024, representa uma fração irrisória de um mercado que importou US$ 280 bilhões no mesmo período.
A margem inexplorada é a oportunidade.
O Brasil que também alimenta o planeta
Você deve estar se perguntando: e as commodities?
O Brasil é o maior exportador mundial de soja, café, açúcar, suco de laranja, carne bovina e frango, produzindo alimentos suficientes para alimentar cerca de 900 milhões de pessoas, com superávit comercial agrícola superior a US$ 115 bilhões.
Um país que domina alta tecnologia aeroespacial, desenvolve medicamentos candidatos ao Nobel e opera o sistema de pagamentos mais avançado do mundo, e ainda alimenta o planeta.
Gestoras globais como BlackRock e Carmignac classificam o Brasil como um dos mercados mais subavaliados do mundo. O mercado continua a ser subestimado pela percepção externa, enquanto os fundamentos reais contam uma história diferente.
O que muda para quem quer internacionalizar
Quem entra com método, análise de mercado real e parceiros que conhecem as nuances regionais não encontra o país que o estereótipo descreve. Encontra uma das maiores economias do mundo , com consumidores exigentes, varejo sofisticado e oportunidades reais, convivendo com desafios estruturais que nenhuma análise séria pode ignorar.
O Brasil não é difícil. É desconhecido. E há uma diferença enorme entre as duas coisas .
Desconhecido para quem chega com o mapa errado. Desconhecido para quem trata 26 estados como um bloco uniforme. Desconhecido para quem confunde complexidade com risco e ausência de método com coragem empreendedora.
Para quem estuda o mercado, escolhe os parceiros certos e constrói estratégia com base em dados reais, o Brasil não é um obstáculo. É uma vantagem competitiva que a maioria dos concorrentes ainda não descobriu. As portas estão abertas.
A Davvero Empório atua há mais de uma década entre Europa e Brasil, conectando produtores europeus ao mercado brasileiro com leitura cultural, precisão regulatória e relacionamento construído nos mercados que realmente importam.
Sobre a autora
Luciana A. Marinho é fundadora da Davvero Empório e atua como parceira exclusiva de desenvolvimento comercial no eixo Brasil–Europa, com foco em vinho e café de especialidade.
Fontes: Serviço Geológico do Brasil (SGB), PwC Brasil, Bank of America Research, IBGE, Embraer — Relatório Anual 2025, Banco Central do Brasil, BNDES, Petrobras, Anvisa, USP/Hemocentro de Ribeirão Preto, FMI World Economic Outlook 2025/2026, MDIC, Nicola Minervini — LinkedIn Articles 2025/2026, MINERVINI, Nicola. Série de artigos sobre internacionalização para o Brasil. LinkedIn, 2025/2026. Disponível em: linkedin.com/in/nicola-minervini