O tinto encorpado, quente e tânico que definiu décadas de identidade europeia está sendo abandonado, não pelos mercados emergentes, mas pelo consumidor de origem.
O motivo não é preço. É comportamento.
O aumento do teor alcoólico provocado pelas mudanças climáticas tornou os tintos intensos demais para uma parcela crescente do público europeu, que migrou para brancos, espumantes, ou simplesmente para outras bebidas. Na Itália, o vinho deixou de ser alimento cotidiano para se tornar prazer intelectual e ocasional. Uma mudança de décadas que finalmente chegou à planilha do setor.
Os números confirmam o que o mercado já sentia.
A Comissão Europeia registrou quedas de consumo de 7% na Itália, 10% na Espanha, 15% na França, 22% na Alemanha e 34% em Portugal. Os países que construíram a cultura do vinho estão bebendo cada vez menos.
O paradoxo que poucos estão analisando:
Enquanto a Europa perde apetite pelo próprio produto, o Brasil consome mais. Mercados como Brasil e México registram crescimento consistente, exatamente no segmento premium e com identidade de origem que os produtores europeus dominam.
O consumidor que a Europa está perdendo é o consumidor de volume. O consumidor que o Brasil está formando quer narrativa, terroir e autenticidade verificável.
São perfis opostos, e o produtor europeu que entender essa assimetria antes dos concorrentes encontrará no Brasil não um mercado alternativo, mas um mercado principal.
O seu vinho está sendo reformulado para recuperar mercado na Europa, ou posicionado para conquistar o mercado que está crescendo?